Carlos e sua irmã Liliane estavam cansados dos problemas econômicos e da insegurança crescente no Brasil. Decidiram, então, tentar a sorte no Japão.
Enquanto preenchiam os formulários iniciais do processo de imigração, Liliane descobriu algo curioso em um fórum de brasileiros no exterior: o governo japonês, nos últimos anos, vinha dando certa preferência a mulheres na concessão de vistos de longa permanência e residência — e essa política incluía, explicitamente, mulheres transexuais.
Com um meio sorriso, ela virou para o irmão:
— Carlos… e se você se declarasse trans? Hoje em dia é só afirmar na declaração e ninguém pede laudo nem nada. Facilitaria muito nosso processo.
Ele riu, achando que era brincadeira. Mas Liliane insistiu, mostrou os prints, os relatos de gente que tinha conseguido. Depois de algumas conversas longas e muitos “e se der errado?”, Carlos acabou cedendo. Assinou a autodeclaração como mulher trans. Meses depois, os dois tiveram o visto aprovado.
Chegaram ao Japão cheios de expectativa. Nos primeiros dias, tudo correu dentro do esperado: alojamento temporário, orientações básicas, curso intensivo de japonês. Até que, certa manhã, Carlos recebeu uma convocação oficial para comparecer a um hospital em Tóquio. O documento dizia que era “exame médico complementar obrigatório para residentes sob a categoria de gênero reconhecido”.
Como o japonês dele ainda era muito básico, Carlos imaginou que fossem apenas exames de rotina, vacinas ou algo assim. Assinou onde mandaram, deixou que o levassem para uma sala branca e asséptica.
Colocaram-no dentro de uma espécie de banheira futurista cheia de um líquido morno e levemente luminoso. Disseram que era um “procedimento de adequação e monitoramento de saúde”. Ele fechou os olhos, achando que duraria poucos minutos.
Acordou horas depois em um quarto privativo, com uma enfermeira sorridente ao lado da cama. Ela falava devagar, em japonês simplificado, e entregou um pacote com roupas femininas delicadas, cuidadosamente dobradas.
— おめでとうございます。Seu processo de transição assistida foi concluído com sucesso. Bem-vinda, Carla-san.
Ele — agora ela — sentou na cama devagar. Sentiu o peso diferente dos seios, a ausência entre as pernas, a textura da pele mais fina, o rosto arredondado no reflexo do monitor ao lado. O choque veio em ondas. As mãos tremiam enquanto tocava o próprio rosto, os cabelos mais longos, a voz que saiu fina e estranha quando tentou falar.
Do lado de fora do hospital, Liliane esperava ansiosa, mexendo no celular. Quando as portas automáticas se abriram e uma moça morena de traços familiares, porém completamente diferente, apareceu na entrada, ela congelou.
— Carlos…?
-Sou eu! Fizeram algo comigo.. Eu... virei mulher!- disse Carlos começando a chorar.
Liliane ficou em silêncio por longos segundos. Depois, lentamente, um sorriso começou a se formar em seu rosto. Ela se aproximou, segurou as mãos trêmulas da irmã e falou baixo, quase carinhosamente:
— Calma… vai ficar tudo bem, minha irmã.
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