— Obrigado por aceitar essa entrevista, Sérgio… ou…
— Pode me chamar de Sérgio se quiser, mas hoje em dia eu atendo mais como Samanta.
— Certo, Samanta. Como foi pra você essa mudança toda? Um caminhoneiro hétero, macho, ter de virar mulher pra conseguir sobreviver.
— Olha, era terapia ou caixão. Prefiro ser mulherzinha viva do que macho no cemitério, né?
— Entendo. E na prática, como foi essa transição pra você?
— Foi muito estranho no começo. Não é só o corpo que muda. O jeito que as pessoas te olham, te tratam… principalmente os caras, que são a maioria absoluta no meu ramo. Antes eu era “o Sérgio”, um deles. Hoje sou “a Samanta”, e de repente um monte de homem quer me ajudar, se preocupa se eu tô bem… Claro que boa parte deles quer é me levar pra cabine deles, isso eu sei. Mas tudo bem, eu entendo. Passei a vida inteira pensando igualzinho a eles.
— E o lado físico? Como tá sendo viver nesse corpo no dia a dia da estrada?
— No geral, até que é tranquilo. Dirigir eu dirijo igualzinho, o caminhão não liga pro que ttenho entre as pernas. Agora, a TPM e a menstruação… meu Deus, isso é foda mesmo. E força diminuiu bastante. Antes eu ajudava a carregar, trocava pneu… hoje em dia eu peço ajuda a algum homem.
— Se não quiser, tudo bem, mas… e a parte afetiva? Tá se relacionando com alguém?
— Ai, que vergonha… No começo não queria nem pensar nisso. Mas agora tô mais aberta. Conheci algumas pessoas, saí… foi bem legal, pra ser honesta.
— Homens ou mulheres?
— Experimentei os dois lados. No começo achei que fosse mais com mulheres, mas… sei lá, tô sentindo que me dou melhor com homem. Acho que, no fundo, continuo hétero. Só que agora sou mulher hétero. Tô ainda entendendo essa parte, mas tá fazendo sentido pra mim.
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