— Doutor, eu sinto que tem alguma coisa errada comigo.
Não é que eu esteja me sentindo doente, mas… minha pele está estranhamente lisa, mais macia do que nunca. Meu peito está dolorido, parece inchado, e eu juro que estou perdendo massa muscular. E… pode parecer loucura, mas tenho a impressão de que estou ficando mais baixo.
— Hmm… Nelson, me responde uma coisa: você viajou recentemente para a Índia?
— Sim, estive lá há umas três semanas. Por quê? Como o senhor sabe?
— Um colega me comentou sobre um caso novo que está circulando por lá. Um vírus que, pelo visto, afeta exclusivamente homens.
— É grave? Eu corro risco de… morrer?
— De morte, não. Mas, pelo que estão relatando, esse vírus provoca mudança de sexo. Os homens que o contraem passam por um processo de feminização completa. Eles se tornam mulheres, em termos biológicos.
— O quê? Isso é impossível, doutor. O senhor está falando sério? Isso não existe!
— Eu sei que soa absurdo. Por isso mesmo precisamos fazer exames com urgência — hormonais, genéticos, de imagem. Só assim teremos certeza do que está acontecendo.
— Mas… e se for isso mesmo? O senhor consegue me curar, né? Tem algum tratamento, alguma medicação…
— Infelizmente, até o momento, não existe cura nem tratamento capaz de reverter o processo. O que podemos fazer é acompanhar a transição, aliviar os sintomas — analgésicos para as dores. Recomendo acompanhamento psicológico. Não é algo que a pessoa consiga atravessar sozinha.
— Não. Não, não, não. Isso não vai acontecer comigo. Eu não vou virar mulher.
Seis meses depois.
— Olá, Nelson. Como você está se sentindo hoje?
— Muito bem, doutor. Finalmente decidi pelo meu nome. Agora sou a Natália.
— Que bom ouvir isso, Natália. Seus exames recentes estão perfeitos — normais para uma mulher jovem e saudável, claro. Alguma novidade desde a última consulta?
— Sim… veio. Menstruei na semana passada. Tive tanta cólica.
— Isso é excelente notícia. Significa que está tudo funcionando. A maioria das mulheres sente cólicas, especialmente no começo. Vou te indicar uma ginecologista para te acompanhar. E a cabeça como tá?
— No começo foi difícil. A gente cresce como homem, planeja tudo pensando nisso, e de repente o mundo vira de cabeça para baixo e você vira uma garota. O psicólogo ajudou. Aos poucos fui aceitando que eu sou a fêmea agora. Estou aprendendo a gostar disso.
— Isso é um progresso enorme. E a vida social?
— Minha namorada terminou comigo logo que as mudanças ficaram visíveis. Mas, mesmo assim, ela ficou do meu lado o tempo todo, me ajudou muito. E tem o Ricardo, meu amigo de anos. Ele tem sido incrível. Aliás, foi ele quem me trouxe hoje… e vai me levar pra jantar quando sairmos daqui, por isso estou usando este vestido.
— Entendi... Olha, Natália… pelos exames e pelo que você me conta, acho que não precisa mais de acompanhamento comigo. Você está bem encaminhada. Mas, por favor, não deixe de marcar com a ginecologista. E, se for começar sua vida sexual como mulher, converse com ela antes. Sabe que agora você pode engravidar, então fale com ela sobre contracepção, prevenção, tudo isso.
— …S-sim, doutor. Entendi. Obrigada… por tudo.
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