domingo, 18 de janeiro de 2026

 

— Doutor, não tenho me sentido normal ultimamente. Não é que eu esteja passando mal, mas meu peito dói e está um pouco inchado. Minha pele parece mais lisa, mais sensível. Já faz mais de uma semana que não faço a barba e meu rosto continua praticamente sem pelos. Perdi bastante peso e… pode parecer loucura, mas tenho certeza de que estou ficando mais baixo.

— Entendo, Mateus. Tire o avental e me deixe examinar você.

O médico examinou o corpo do paciente de cima a baixo: a pele excessivamente macia, o peito começando a se projetar de forma atípica, a cintura visivelmente mais fina do que seria normal em um homem. Por fim, pressionou levemente os testículos e sentiu que eles estavam vazios, atrofiados — como se o que deveria estar ali tivesse simplesmente… migrado para outra parte do corpo.

— Me diga uma coisa. Você esteve em uma das praias do nosso litoral norte recentemente? Aquele lugar onde um navio encalhou há alguns dias?

— Sim, doutor. Estive lá e até nadei perto do navio. Como o senhor sabe?

— Bem… acho que sei exatamente o que está acontecendo.

— Então me explique, por favor.

— Aquele navio levava uma carga para a indústria farmacêutica. Matéria-prima para algumas drogas experimentais bastante… inovadoras. Fiquei sabendo por colegas que alguns pacientes começaram a apresentar sintomas idênticos aos seus.

— Então eu fui envenenado?

— Não exatamente. Para começar, você não vai morrer e nem vai ficar doente no sentido clássico.

— Ufa! Que alívio. Então não é grave.

— Veja bem… o que está acontecendo com o seu corpo é que você está se transformando em uma mulher.

— Quer dizer… agora tudo faz sentido. Mas, sabendo disso, o senhor pode me tratar, certo? Tem como reverter?

— Infelizmente, não. Ainda não encontraram um tratamento eficaz. As poucas tentativas que foram feitas acabaram causando danos graves aos pacientes. O que posso fazer é acompanhar o processo e tentar tornar a transição o mais tranquila possível.

— Mas… e quanto tempo eu tenho até…?

— Até se tornar uma mulher completa? Varia de pessoa para pessoa, mas geralmente leva de dois a seis meses. Depois disso, será como se você tivesse nascido do sexo feminino.

— E eu poderei tomar esteroides para voltar a ser homem? Para impedir isso?

— Não. Como eu disse, qualquer tentativa de alterar o perfil hormonal de forma agressiva foi catastrófica. Eu aconselho fortemente que você procure um psicólogo — ou melhor, uma equipe especializada — e tente aceitar isso da melhor forma possível.

— Entendo…



Um ano depois.

— Mateus?! Faz tempo que não aparece. Como está?

— Estou ótima. Na verdade, agora me chamo Michele, doutor. Depois que o senhor me deu aquelas notícias, eu não me conformei. Consultei mais três médicos, e nenhum deles pôde me ajudar. Então fiquei em depressão por semanas, até que a minha esposa me convenceu a buscar ajuda psicológica. Aos poucos fui aceitando que virar mulher não era o fim do mundo, e com o tempo passei a gostar de algumas coisas do mundo feminino. Hoje eu amo ser mulher.

— Puxa, que bom ouvir isso. Mas e quanto à sua esposa? Ela aceitou?

— Sim e não. Ela aceitou que não havia saída, que perderia o marido que tinha. Mas logo pediu o divórcio e hoje está namorando.

— E quanto a você, como encarou isso?

— Difícil no começo, mas logo percebi que, sendo mulher, tendo um corpo como o dela, eu também não iria querer continuar o casamento. Mas o bom é que somos amigas.

— Que bom. E você está sozinha? Tem alguma pessoa na sua vida hoje?

— Bom, doutor, eu tenho sim. Uma bem legal e a gente está se dando muito bem.

— E ela sabe sobre o seu passado?

— Na verdade é ele, doutor, e sim, ele sabe que fui homem, mas não se importa.

— Parabéns. Mas não veio aqui apenas para me visitar, veio?

— Não, senhor. É que estamos pensando em levar a coisa a sério, tipo casamento. Eu já passei no ginecologista e ele disse que está tudo normal, mas queria a sua opinião também. Sabendo o que me aconteceu, acha que um dia posso ser mãe?

— Vamos dar uma olhada, mas adianto que já aconteceu com casos como o seu.

— Puxa, obrigada, doutor! Não sabe como isso me deixa feliz!

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